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O meu primeiro Songkran: encharcado e encantado

O meu primeiro Songkran: encharcado e encantado

Ninguém me preparou adequadamente para o momento em que um estranho esfregou barro branco e frio nas minhas bochechas, sorriu, disse “Feliz Ano Novo” e despejou um balde de água gelada pelas minhas costas abaixo. Eram 14h do dia 13 de abril, o primeiro dia de Songkran, e eu tinha entrado ingenuamente em direção à Khao San Road com o telemóvel no bolso e uma camisa que me importava de perder. As duas decisões foram erradas. O que se seguiu foram três dias da celebração pública mais alegre, encharcada e absolutamente descontrolada de que já fiz parte — e repetiria tudo amanhã mesmo.

O que é realmente o Songkran

Tirando as batalhas de água, o Songkran é o Ano Novo tailandês, tradicionamente um período de purificação, de acumulação de méritos e de visitas à família. A água começou como um ritual de respeito — verter água perfumada suavemente sobre as mãos dos mais velhos e sobre as imagens de Buda para lavar o ano que passou. Em Bangkok, esse ritual delicado evoluiu, pelo menos nas praças públicas, para uma batalha de água à escala bíblica em toda a cidade. Ambas as versões coexistem: um Songkran silencioso e reverente nos templos e nas casas das famílias, e um outro ensurdecedor e completamente encharcado nas ruas. O guia do Songkran explica devidamente as raízes culturais, e a página do Songkran em Bangkok diz-te exatamente onde acontece cada versão.

Cai todos os anos entre 13 e 15 de abril, bem no período mais quente e castigante do calendário tailandês — o que é exatamente a razão pela qual ficar encharcado parece menos uma agressão e mais uma salvação. O calendário de festivais marca-o como o maior evento do ano, e a cidade paralisa praticamente por completo.

Dia um: emboscada total em Khao San

Tinha lido que a Khao San Road era o epicentro, por isso fui direto lá — e naturalmente sem armas. A Khao San durante o Songkran é um corredor de 400 metros de pistolas de água, mangueiras, baldes de gelo e espuma, apinhado de viajantes e locais que se ensopam uns aos outros sem qualquer discriminação. Em noventa segundos estava encharcado até aos ossos. Ao fim de cinco minutos já tinha comprado uma pistola de água barata a um vendedor de rua por 150 baht e tinha entrado no caos com o fervor de um recém-convertido.

O guia da Khao San Road descreve a energia carnavalesca geral da zona; multiplica isso por dez e acrescenta água, e tens o Songkran. É barulhento, é molhado, é às vezes avassalador, e é uma diversão enorme se chegares com o espírito certo e as roupas erradas.

O que aprendi da forma mais difícil

Três lições do primeiro dia que moldaram o resto do meu Songkran. Primeira: impermeabiliza o telemóvel. Uma bolsa plástica com cordão por 50 baht salvou o meu segundo dia depois de o meu primeiro telemóvel ter passado uma tarde perigosamente perto de um balde de gelo. Segunda: usa roupas e sapatos que não te importes de ensopar e lavar, de preferência de secagem rápida, e deixa tudo o que tem valor no hotel. Terceira: a pasta de barro branco que te passam na cara faz parte do ritual — é uma espécie de bênção —, por isso não te esquives quando um estranho sorridente avança para as tuas bochechas.

A própria água é o grande equalizador. Monges, avós, turistas, condutores de tuk-tuk, polícias — ao longo desses três dias toda a gente é alvo legítimo, e há algo genuinamente alegre numa cidade inteira que decide coletivamente abdicar da sua dignidade.

Uma quarta lição que merece parágrafo próprio: as pistolas de água importam mais do que se pensa. As pistolas baratas de 150 baht vendidas em cada esquina ficam vazias em segundos e partem ao fim de um dia; se te vais comprometer a sério, as pistolas com reservatório às costas que os jogadores mais empenhados carregam — entre 300 e 500 baht — valem o investimento, com água suficiente para aguentar uma batalha de rua decente. E os baldes de água gelada mergulhados nos tonéis comunitários são a arma secreta — reabastecer num tonel partilhado de água com gelo à beira da estrada é gratuito, comunitário, e é exatamente assim que os locais fazem. Aprendi também que o festival rende mais em sessões curtas e intensas do que em maratonas: duas ou três horas de batalha a sério, depois uma muda de roupa seca e uma refeição, e de volta à ação. Tentar ficar encharcado do meio-dia à meia-noite é uma receita para o esgotamento e para os pés em água.

Dia dois: Silom, o longo corredor molhado

No segundo dia fui a Silom, onde a cidade fecha várias faixas de rodagem e os carros de bombeiros regam as multidões enquanto a música troveja em cada bar. O Songkran de Silom tem mais o formato de um desfile do que o ambiente de panela de pressão de Khao San, e a cena LGBTQ+ da zona promove algumas das festas mais animadas do festival. Percorri a rua toda a ser atingido de todos os lados e adorei cada segundo.

No segundo dia descobri também o lado mais calmo. Entrei num templo de manhã cedo, antes do início das batalhas, e observei famílias a banhar suavemente imagens de Buda e a verter água sobre as mãos dos mais velhos — o que recalibrou a minha perceção de tudo. O caos é divertido, mas nasce de algo ternurento, e o guia de costumes e etiqueta tailandeses vale a pena ser lido para perceberes a diferença.

A etiqueta que gostaria de ter sabido antes

O Songkran tem regras, mesmo no meio da anarquia. Não deites água em monges, em idosos, ou em quem claramente quer ficar seco — como pessoas com roupa de trabalho ou em motocicletas, embora este último grupo seja alvo legítimo nas zonas designadas. Não uses água gelada de forma agressiva com estranhos; um salpico é divertido, mas um encharcamento com água gelada vai longe de mais para alguns. Sê gentil com o barro. E lembra-te que as estradas ficam genuinamente perigosas durante o festival, com acidentes a disparar, por isso o melhor é deslocar-te a pé ou de BTS em vez de mota.

Dia três: o Songkran mais calmo e gentil

Ao terceiro dia os braços doíam-me de carregar uma pistola de água e o entusiasmo de emboscar estranhos tinha dado lugar a algo mais suave. Passei então a manhã à procura da versão do Songkran de onde nasceram as batalhas de água. Fui a um templo perto de Banglamphu e assisti a um ritual lento e belo: pessoas a verter pequenas tigelas de água perfumada sobre imagens de Buda, a construir pequenas estupas de areia no recinto do templo, e a banhar as mãos de monges e familiares idosos num gesto chamado rod nam dam hua — um pedido de bênção e perdão. Não havia gritos, não havia gelo, não havia espuma — apenas água como ato silencioso de respeito.

Isso recontextualizou o festival inteiro para mim. O Songkran é, no fundo, sobre renovação e purificação enquanto o velho ano cede ao novo, e as batalhas de rua são simplesmente essa ideia amplificada ao volume máximo. Compreender os costumes e a etiqueta tailandeses que lhe estão subjacentes fez com que o encharcamento parecesse menos uma festa de espuma e mais a participação em algo genuinamente antigo. Se puderes poupar uma manhã, faz os dois: o templo ao amanhecer, a batalha de rua depois do almoço. O contraste é o ponto de chegada. O guia do Songkran e o aprofundamento do budismo em Bangkok valem ambos a leitura para perceberes no que te estás a meter.

Logística prática do Songkran que ninguém menciona

Alguns detalhes logísticos concretos que moldaram os meus três dias e vão moldar os teus. O transporte primeiro: nem tentes apanhar um Grab ou táxi perto das zonas de festival, porque as estradas fecham e o trânsito paralisa — o BTS Skytrain elevado é o teu salva-vidas, deslizando acima do caos e largando-te seco na entrada da ação. O dinheiro em segundo: os multibanco perto de Khao San esgotam e muitas lojas fecham, por isso levanta o que precisas antecipadamente e guarda-o na tua bolsa impermeável junto com o telemóvel. O alojamento em terceiro: reserva com antecedência, porque o Songkran é época alta na cidade velha e os preços disparam. E sabe que um grande número de restaurantes, lojas e até algumas atrações fecham durante os três dias enquanto os funcionários viajam para casa para estar com as famílias — a cidade que vais conhecer é genuinamente uma cidade em férias, não uma cidade a funcionar normalmente.

Mais uma coisa sobre segurança: o período do festival regista infelizmente o pico anual de acidentes rodoviários, muito por culpa do álcool, por isso se viajares entre cidades evita autocarros noturnos e motas durante os feriados. O calendário de festivais e o guia da melhor altura para visitar Bangkok alertam para isso, e vale a pena levá-lo a sério.

Recomendaria?

De coração aberto, mas com ressalvas. Se queres experienciar Bangkok no seu estado mais exuberante, planeia a viagem para meados de abril e mergulha de cabeça. Se vieste para manhãs serenas em templos e cruzeiros tranquilos no rio, sabe que o Songkran vai tomar conta da cidade inteira durante três dias e que muitos negócios fecham. Não há Songkran neutro — ou entras na batalha de água ou escondes-te dela, e esconder-te parece um desperdício. Cheguei a Bangkok à espera de templos e comida de rua, e saí com um balde de água gelada despejado na cabeça por uma senhora de setenta anos em êxtase — o que permanece, anos depois, como uma das minhas memórias de viagem preferidas.

Se preferes experienciar a face mais calma da cidade depois da molhagem, um circuito guiado pelo Grande Palácio, Wat Pho e Wat Arun é o contraponto digno perfeito para quando as roupas finalmente secarem.

Perguntas frequentes sobre o Songkran em Bangkok

Quando é o Songkran em Bangkok?

O Songkran cai todos os anos entre 13 e 15 de abril, o Ano Novo tailandês e o período mais quente do ano. Algumas celebrações de bairro podem prolongar-se um dia para cada lado.

Qual é o melhor sítio para o Songkran em Bangkok?

A Khao San Road é o epicentro mais barulhento, Silom acolhe uma enorme festa de rua, e o RCA e o Siam atraem multidões mais jovens. Para o lado tradicional, visita um templo de manhã cedo, antes do início das batalhas de água.

Como protejo o telemóvel durante o Songkran?

Compra uma bolsa impermeável com cordão por cerca de 50 baht a qualquer vendedor de rua, e deixa no hotel tudo o que não podes substituir. Parte do princípio de que tudo o que trazes ficará encharcado.

O Songkran é uma boa altura para visitar Bangkok?

Depende do que procuras. Em termos de exuberância, é imbatível — mas a cidade está quente, apinhada e parcialmente encerrada, com muitas lojas e restaurantes fechados para o feriado. Se vieste para templos serenos e cruzeiros tranquilos no rio, o guia da melhor altura para visitar pode apontar-te para outro mês.

Como me desloco em Bangkok durante o Songkran?

Usa o BTS Skytrain elevado e o MRT, que funcionam normalmente acima das ruas fechadas e inundadas. Evita táxis e Grab perto das zonas de festival, onde o trânsito paralisa, e nunca andes de mota durante o feriado, quando os acidentes rodoviários disparam.

O que devo vestir para o Songkran?

Roupas e sapatos de secagem rápida que não te importes de ensopar — pensa numa t-shirt sintética ou top de surf e sandálias com tira no calcanhar. Deixa no hotel tudo o que tem valor ou que prezas, e assume que tudo o que trazes ficará encharcado em minutos.